Uma irmã

 

Era uma vez uma irmã que morava em outro país. Em outro país não, em outro planeta. Ou existe abismo maior que o instalado entre uma criança de quatro anos e uma adolescente de 14? Eram irmãs diferentes das outras: não partilharam namorados, nem festas, nem segredos da adolescência.

Deus, Alá ou o nome que você quiser dar botou na mesma casa as duas pessoas de personalidades mais opostas que eu conheço. A mais velha era meiga, doce e bem ajuizada. Estudou, namorou e casou. Construiu a sua volta um mundo sólido, com cheiro de afetos duradouros, de coisas feitas para uma vida inteira. A outra tem alma de acampamento cigano. Embora seja doce também, sua vida é uma colagem de fases diferentes: morou em várias cidades, saiu de casa, foi ver o mundo, vive cada dia com uma idéia nova na cabeça.

As duas irmãs viveram mais de 20 anos cada uma em seu planeta.
Gostando-se, porque se sabiam irmãs, mas cada uma no seu planeta. E durante muito tempo, a única coisa que as uniu foi o sangue. Uma achava a vida da outra muito diferente da sua, muito isso, muito aquilo e daí pra se tornarem quase estranhas foi um pulo.

Um dia a irmã mais ajuizada teve filhos. A outra, meio maluca, se aproximou, porque adora crianças. E não, elas não descobriram muitas afinidades. Mas aprenderam uma coisa bacana: a respeitar as diferenças, e ver beleza na vida da outra.

A mais nova, que nem pensa em ter filhos, fundar um lar, passou a admirar a capacidade da outra de organizar tudo: de trabalhar fora, de cuidar do marido, de manter a casa em ordem, os filhos bem cuidados e ainda ter tempo de ir ao cabeleireiro e ouvir com paciência os seus problemas. Logo ela, (quem já viu seu quarto ou hospedou-a por mais de três dias sabe do que eu estou falando) que se sente incapaz de manter em ordem as suas coisas de solteira e está há três meses se organizando pra ir ao dentista.

Não que tenham resolvido trocar de vida: cada uma, apesar de ver os méritos da vida da outra, prefere ficar como está.

Se moram agora no mesmo mundo?  Não. Mas os mundos estão tão pertinhos que às vezes dá até pra dar um abraço.

 

Um beijo, Lara.

 

Verão em São Paulo

 

 

Dizem que todas as cidades têm seus prós e contras. Eu adoro São Paulo, mas o que São Pedro está fazendo comigo já é sacanagem. Alto verão no país todo: Timbalada ensaiando em Salvador, Olinda se preparando para o Carnaval, 32º à sombra em Aracaju. E eu vim trabalhar hoje com bota de cano alto e cachecol no pescoço. Exatos 12º quando eu saí de casa. Alguém merece um verão assim, depois de morar três anos em Salvador?

A gente se acostuma (Marina Colassanti)


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui,
um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta,
de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Era um pouco sobre isso que eu estava querendo escrever, mas não estava achando as palavras certas. Sobre se acostumar com a aspereza. E se acostumar a tratar os outros com aspereza. Eu, pessoalmente, prefiro não me acostumar.

Perto Demais da Verdade

 

Este final de semana vi dois filmes bem bacanas, embora muito diferentes um do outro: Machuca e Perto Demais. O primeiro, de Andres Wood, conta a história de dois garotos (um pobre e outro rico), tendo como pano de fundo o golpe que retirou Salvador Allende do poder e instaurou a era Pinochet. Sem querer ser pessimista, e aqueles que amam filme nacional que me desculpem, mas acho que é o filme que vai tirar Olga do páreo do Oscar este ano, cujas indicações acontecem amanhã. Achei Machuca um filme encantador, de um realismo impressionante. Aliás, se tem um ponto que ligam os dois filmes, é justamente, a falta de sutileza. Perto Demais (com interpretações fantásticas de Jude Law e Clive Owen), é um filme denso, com diálogos inteligentes e por vezes cruéis. Trata com dureza das relações entre homens e mulheres, seus desejos, suas traiçoes. A inconstância dos personagens desnorteia, por vezes, mas a crueza com que o tema traição é tratado, faz de Perto Demais, para mim (comentário nada especializado, diga-se de passagem), um filme espetacular. Chega a ser doído. Mas traição não é mesmo um tema fácil. E abordá-lo com menos lágrimas e mais dureza é o que faz de Perto Demais um filme especial.




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