A casa foi tomada. Eu não.

Eu sempre gostei de Cortázar. Mas precisei ler um conto dele pra virar fã de verdade. Trata-se de “Casa Tomada”. Resumindo bem grosseiramente, é a história de um casal de irmãos que tem metade de sua casa invadida num primeiro momento, e passa a viver na outra metade, aceitando passivamente a invasão. Na seqüência, a casa toda é invadida, e os personagens ficam sem ter onde morar, mas aceitam tudo isso passivamente. A partir do conto, eu li umas duas ou três análises, e aí tem de tudo: de interpretação da casa como representação do psiquismo à outra que vê um desejo sexual incestuoso reprimido. Até que faz sentido. Mas eu, que não sou intelectual nem nada, fiquei refletindo sobre o quanto isso não acaba acontecendo na vida da gente. Na minha, mais especificamente. Não acontece toda hora, e nem com todo mundo. Mas às vezes, a gente vai abrindo brechas. Vai a uma festa que não queria ir, faz um favor que não queria fazer, sorri quando tem vontade de esganar alguém. Aceita fazer um relatório para uma colega de trabalho porque ela está tão ocupada, coitada... (e quem não está hoje em dia?). Tudo na maior naturalidade, como a tomada da casa. E aí quando vai ver, está como a casa do Cortázar, completamente tomada por coisas que não queria fazer, ou ainda, que não deveriam ser feitas por você. Para isso, tem duas saídas: ou lutamos contra essa invasão – e aí, mesmo que você se recuse com a maior simpatia do mundo, vai ver um monte de cara feia -, ou aceitamos passivamente, e ainda assim, como todo mundo sabe, ainda não vamos agradar todo mundo (e quem é que ainda almeja isso, por Deus?). É por estas e por outras que eu resisto. Porque - só para terminar com um superclichê - cara feia pra mim é fome. E ponto.
Sobre Maria Bethânia e o Tempo

Ontem eu fui com Francisco assistir ao show da sempre diva e insuperável Maria Bethânia, no Directv. Apesar da ótima e paciente companhia, não deu pra evitar o pensamento de que da última vez que estive no Directv, assistindo o show da Maria Rita, as coisas eram bem diferentes. Mas enfim...
Em comemoração a seus 40 anos de carreira, Bethânia interpreta canções de Vinícius, além de alguns de seus maiores sucessos e abre o show com uma música do mano Caetano, que eu não conhecia, e cuja letra é tão linda que eu decidi reproduzir aqui.
Oração ao Tempo.
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que eu te digo
Tempo tempo tempo tempo
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definitivo
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Eu já sei o que eu quero do tempo: que ele me faça esquecer algumas coisas das quais eu insisto em lembrar e que, apesar de serem boas lembranças, ainda me deixam beeeem tristes. E que me faça parar de fuçar nos blogs alheios e ficar ainda mais melancólica.
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