Modernidades

 

Eu adoro algumas modernidades. E a outras eu levo uma vida para me acostumar. Deixo amigos e família de cabelo em pé quando digo que pago todas as minhas contas e faço praticamente todas as minhas transações bancárias pela internet. Digo praticamente todas porque ainda não é possível sacar dinheiro via internet banking. Mas é um dos poucos motivos que me leva ao banco. Compro a maioria dos meus livros pelo Submarino, mesmo trabalhando no mesmo prédio de uma FNAC. Idem para Cds e até um hidratante metido a besta. Dia desses cheguei ao cúmulo da dependência da Internet e comprei uma amarelinha de borracha pelo Submarino (não riam, não é para mim, é o presente de aniversário da minha sobrinha). Dá para acreditar que uma pessoa com este perfil não tinha celular? É, não tinha.  Venci minhas milhares de resistências a esta modernidade – que a esta altura, só é modernidade para mim – e comprei um. Confesso que ainda estou me adaptando. É estranho conversar com um amigo enquanto olho meu almoço esfriando no prato. Sem contar que o celular tem praticamente 852.536 funções que eu não uso para absolutamente nada. Mas quando no meio da aula mais chata da semana, uma das amigas mais bacanas que eu tenho liga pra dizer que é bom que agora eu tenho celular, porque dá até pra me chamar para ir depois da aula em um barzinho que só toca Chico Buarque, eu tenho que admitir... Eu amo estas modernidades.

Distanciamento histórico

 

 

Eu e Alessandra usamos uma expressão que com certeza não foi criada com esta utilidade que damos para ela. É o distanciamento histórico. Distanciamento histórico é algo assim quase – eu disse quase – tão bom quanto sexo, halls de menta com água gelada ou abraço apertado. É aquilo que te faz ver que quase tudo aquilo porque você chorou, se descabelou, sofreu e atormentou as amigas não era assim tão importante. Ou era, mas só naquela época. Vou dar um exemplo: quando eu vejo meu primeiro namorado, e descubro que além de ter se tornado um seriíssimo advogado, não ter saído da casa da mamãe até agora, ele hoje acha tudo o que eu gosto estranho, maluco ou perigoso e quando eu conto o que andei fazendo nestes 11 anos que a gente não se viu ele me olha com um sorriso gentil e uma expressão de quem acabou de encontrar a última hippie do universo (e quem convive comigo sabe que de hippie eu não tenho nada), eu agradeço ao distanciamento histórico. É o que me faz ver que aquela gra-ci-nha por quem eu passei noites a fio preocupadíssima, não ia mesmo me fazer feliz. Antes que os politicamente corretos de plantão me apedrejem, não estou falando mal de ninguém. Ele é feliz do jeito que é, acho eu. Mas não me faria feliz nem na próxima encarnação. E isso, meus amigos, só o distanciamento histórico faz a gente perceber. Infelizmente – ou felizmente – não funciona assim pra tudo. Tem gente que com o passar dos anos vai ficando cada vez mais admirável. Afinal, de gente gentil, educada, que ouve música boa e te respeita, não dá pra sentir outra coisa senão orgulho de ter escolhido tão bem um namorado – mesmo que vocês tenham terminado depois. O distanciamento histórico não serve só pra ex-namorados, mas para músicas, comidas e outras coisas que você achava que adorava. Hoje na hora do almoço, passei na FNAC para comprar a Vogue deste mês. Como não tinha muito o que fazer, acabei indo para a sessão de World Music, e meu ouvido identificou a música que estava tocando como decididamente cafona. Quanto comecei a prestar atenção na letra, percebi que era um do CD de Claude François, um cantor francês que um certo ex amava de paixão e que me acordou durante várias manhãs. Quando eu penso que eu já usei saia balonée, cabelo repicado em cima, e acordei feliz da vida ouvindo Claude François – e achando tudo isso o máximo-, eu só posso mesmo agradecer ao distanciamento histórico.




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