Nem tudo está perdido
O mundo precisa mesmo de um pouco mais de gentileza, como eu disse no post abaixo. Mas hoje eu queria escrever sobre a situação oposta, quando a gente percebe o quanto ainda tem gente sensível no mundo. Sensibilidade é um negócio complicado. Às vezes um dia cheio, um imprevisto, ou mesmo uma desatenção... e lá se vai a tal da sensibilidade ralo abaixo. Explico melhor: tenho amigos ótimos, que são assim uma família, e não posso me queixar de nenhum deles. Com seus defeitos, qualidades e particularidades, eles são tudo o que eu poderia esperar em matéria de amizade. Mas é engraçado perceber que às vezes a gentileza vem de onde menos se espera. Tem mais ou menos um mês, eu passei por um dia beeeeeem triste. Por um motivo ou por outro (pressa, correria, cansaço) praticamente ninguém dos que me são realmente próximos percebeu esta tristeza. Aí quando eu já estava no elevador da faculdade, alguém que estuda comigo, e com o qual eu não tinha trocado nem meia dúzia de palavras, me perguntou se estava tudo bem, se eu precisava de alguma ajuda. Simples assim. Sem ser piegas, sem ficar insistindo, sem querer saber o porquê da tristeza, sem ser deselegante ou invasivo. Eu disse que estava tudo bem, e o pobre do moço, que não lê esse blog, não sabe até hoje o quanto este gesto que para ele deve ter sido banal e do qual possivelmente ele não se lembra me devolveu um pouca da fé perdida nas pessoas. Ontem foi a mesma coisa. Alguém que em teoria não deveria dar a mínima para o que eu penso, que me “conhece” há muito pouco tempo e que está longe, longe, lá no Canadá, teve a sensibilidade de ouvir. E ela não sabe o bem que me fez. Só por ouvir. Delícia mesmo é descobrir que embora o mundo precise de um pouco mais de gentileza, eu ainda tenho a sorte de cruzar com gente muito bacana. Valeu, viu, Dona Guida?
Sobre lugares exóticos e a gentileza.
Às vezes a gente visita alguns lugares que mexem com a gente. As “primeiras vezes” porém, tem um gosto muito especial. A primeira vez que eu me vi sozinha, numa praia totalmente deserta em Trancoso. O primeiro passeio pela Champs Elysées. A primeira corrida num calçadão de Copacabana. Ou mesmo a primeira vez que eu me vi sozinha numa cidade do interior da Bahia, que nem livraria tinha, com a perspectiva de passar lá uma longuíssima semana. Outros lugares mexem com a gente pelo inusitado. Não consigo esquecer a sensação de pisar pela primeira vez na propriedade de Francisco Brennand no Recife. São lugares que te fazem pensar em coisas sobre as quais você não tinha pensado antes, te fazem sentir de forma diferente, pelos mais diversos motivos. Ontem eu estive num lugar assim. Fui fazer uma matéria sobre budismo no Templo Zu Lai, na região metropolitana de São Paulo. Eu nem budista sou. Mas estar naquele lugar modificou alguma coisa em mim. Primeiro pela imponência da construção. Segundo pela aura de tranqüilidade que reina naquele lugar. E acho que muito mais por perceber que a pressa faz com que em alguns casos a gente vá esquecendo de algumas coisas simples, mas que fazem toda diferença. A maioria das pessoas, por conta da correria, acaba se estressando e se irritando com a maior facilidade. Fica difícil ter tempo pra ver os amigos com freqüência, e até para as coisas mais banais. E acho que isso tem muito a ver com a quantidade de coisas que se tem pra fazer. Mas tem muito mais a ver com hábito mesmo. Explico com um exemplo bem bobo: quando eu desço do metrô para ir trabalhar, saio em um ponto da plataforma que tem um pilar muito próximo da escada rolante. Tão próximo que uma pessoa bem magra teria que se espremer para passar entre o pilar e a escada rolante. Do outro lado do pilar, tem espaço suficiente para um batalhão passar simultaneamente. E não é que muitas vezes, para cortar caminho, algumas pessoas passar por ali e... ficam presas na fila da escada rolante do mesmo jeito, mas ligeiramente à frente das pessoas que foram pelo caminho normal. Fico pensando: quanto tempo esta pessoa realmente ganhou, para empurrar as outras e se espremer naquele espaço? Dois segundos? Três? Ou só a sensação de ter sido mais esperto? O tempo que você perde explicando para alguém na rua um endereço influencia tanto assim no seu tempo? Em quanto tempo se dá uma explicação? Pensar em 2 minutos seria uma eternidade. E por aí vai. Quanto tempo se leva para perguntar (e ouvir a resposta) se a empregada melhorou da gripe? Ou para elogiar (com sinceridade) o cabelo novo da colega de trabalho? Eu não sou budista. Mas eles têm razão quando dizem que às vezes o mundo precisa é de um pouquinho mais de gentileza.
Brennand e sua propriedade fantástica E o templo que me fez refletir sobre a gentileza