Uma menina

 

Ela fez uma força danada pra ficar bem. Cortou o cabelo, pintou, entrou na ginástica. Comprou um sapato lindo, se produziu e hoje em dia só permite que a vejam bem maquiada, sorridente, bem arrumada.

De vez em quando sai na noite, seduz, beija algumas bocas, conversa, experimenta uma outra cama.

A menina  viaja, faz novos amigos, se sente melhor. Ela começa a perceber o quanto tem valor e o quanto está bem resolvida. Percebe que conseguiu. Depois de muito chorar, está inteira. Ou quase.

Aí o Chico toca uma música específica no rádio, e ela subitamente se dá conta do que estava acontecendo nesta mesma data, mas em um outro ano, lê um texto, escuta uma palavra, vira uma esquina e voilá: a dor que ela achava que tinha ido embora está bem ali, olhando, lembrando a menina que ela melhorou bastante, mas ainda sobrou uma cicatriz. Que estava esquecida, guardada, quase apagada num passado distante. Mas que num final de semana sem graça, apareceu. E machucou.

Sem ser culpa de ninguém, só da cabeça da menina, que não pára de pensar. Estranho este mundo, não é?




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