Ah, essas crianças... e esses espelhos....

 

 

Quando eu era pequena, eu até que era bem previsível, e gostava de brincar de boneca. Só que eu tinha 3 bonecas e 2 bonecos. Duas das bonecas eram loiras de cabelos lisos, a outra era negra, e de cabelo bem cacheado. Eu claro, nessa lógica preconceituosa que às vezes as crianças têm, promovia casamentos entre as duas loiras e os dois bonecos e dizia que a outra era ovelha negra, que não ia casar, mas juntar, que vivia por aí, trabalhando e viajando e aproveitava pra vesti-la bem diferente das outras, que pareciam essas meninas que a gente vê no Iguatemi (e às vezes na faculdade). No feriado, vendo a minha sobrinha brincar com as mesmas bonecas, vi que ando mais para a boneca sem par. Não pretendo casar no papel, não ando super arrumadinha e a idéias de fazer chapinha diariamente me aterroriza. Essa reflexão vem do fato de que ultimamente tenho visto a futilidade tomar conta de muita gente que acho legal. Não sou contra a vaidade, claro. Gosto sim, de estar bem cuidada, de me sentir bem. Mas o fato de alguém preferir uma lipo a um livro ainda me deixa chocada. Digo isso porque tem gente que não percebe, mas existe felicidade no mundo real, onde os namorados não são tão lindos como o Gianechinni, mas fazem declarações mais bonitas que as de novela. E onde as mulheres não são todas Giseles, mas são companheiras. E tem coisa melhor do que ter alguém pra dividir a vida? Além disso, um homem que olhe pra mim e ache que o mais importante é encontrar um corpo esculpido, um rosto bem maquiado e uma obsessão por dietas está longe de ser o ideal de companheiro pra dividir a vida.

Eu conheço gente que está longe longe do ideal de beleza que a gente vê na televisão, que se veste bem diferente do padrão estabelecido, mas encabeçaria fácil uma lista dos mais lindos que eu conheço. Porque é feliz. Porque se importa com o outro, com os amigos, com o próximo, sem se preocupar em ser mais, em contar vantagem. E não dá pra ser assim e não ser lindo.

Naquela época, quando decidia o destino das bonecas, eu não sabia. Mas dá pra ser diferente e ser muito, muito feliz.

 

PS: A este respeito, sobre a vaidade excessiva, a TPM fez um especial lindo este mês, que vale a pena ler. Em um dos textos, Lygia Fagundes Telles dá um conselho às mulheres que estão obcecadas pela vaidade: “Vão ler, mulheres. Desçam da esteira e entrem numa livraria.“




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