Mundo Pequeno, cabeças menores ainda.

 

 

Fui com um amigo que adoro ao Salve Jorge. Chegando lá, encontrei duas moças loiras, magras e bem vestidas que estudaram comigo há muito tempo. O objetivo era botar o papo em dia com esse meu amigo, já que havia quase um mês que não nos falávamos – o que nesse caso é uma eternidade -, mas como elas imediatamente nos convidaram a sentar na mesma mesa, achei que seria uma boa idéia ver antigas conhecidas de colégio.

A conversa que se desenrolou parecia uma destas pegadinhas de programas trash. Logo uma delas quis saber o que eu fazia, e a pergunta veio sem rodeios: “Jornalismo? Isso dá dinheiro?”. “Dá prazer, que pra mim é mais importante”, foi a resposta. Meu amigo, que é gay, sentindo o clima pesado, resolveu mudar de assunto: “E o Carnaval? – Ah, detestamos. É uma festa de baixaria, com um monte de gays se atracando.” Ah, tá.

Ele não ligou – até porque é inteligente e bem resolvido -, mas eu fui pegando uma raiva daquela conversa que nem toda a minha boa vontade podia disfarçar.

Em um momento qualquer da conversa, contei que morei no Nordeste. Sabe quando uma imagem é congelada num filme? Foi assim que me senti. “É mesmo? Mas fazer o que lá? Sem recursos, sem uma faculdade decente, como você fez? Credo! Não imagino a vida sem um shopping.” Eu não sei o que foi pior: ela não imaginar a vida sem shopping, ela imaginar que no Nordeste não tem shopping, ou ela ter mencionado um lugar “sem recursos”.

Eu não respondi. Fiz o que as pessoas vivem apontando em mim como impulsividade exagerada: peguei a minha bolsa, meu amigo e fui embora, sem mais explicações. E sem pagar a conta. Porque saiu até barato, nesse caso. Fosse isso uns tempos atrás e elas teriam tomado uma bolsada.

A conversa prosseguiu animada no Filial, e eu até melhorei de humor, mas não consegui deixar de sentir um certo mal estar na volta pra casa: pensei nos meus amigos nordestinos, todos lindos, gente boa, inteligentes. Pensei no quanto fui bem acolhida lá, nas amizades de uma vida, nos amores e nos dias tudo de bom que passei. Lembrei de dois amigos muito próximos que são gays: na gentileza, na delicadeza, na alegria e em quantas vezes me abraçaram forte quando achei que o mundo fosse acabar. Pensei, sobretudo, na quantidade de gente que, como eu, ama o que escolheu pra fazer, não porque vai ficar rico, mas porque vai ter prazer. E deu um certo medo. Medo de ver como as pessoas, que às vezes parecem tão loiras, bem maquiadas e bem vestidas, podem ser assim, feias e tacanhas. Mas deu alegria de pensar que, com tudo isso, eu vivo cercada de pessoas bem diferentes e encontro gente assim só ao acaso e passo com elas pouquíssimo tempo.




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