A ilha das muitas fantasias

 

 

Meu salto bate nas escadas do avião e faz um barulho bem estranho. Como são estranhos também os meus sentimentos com relação à Brasília. Porque ela é ao mesmo tempo adorável e detestável.

Detestável porque o apelido de Ilha da Fantasia lhe cabe perfeitamente. É tudo muito limpo, muito amplo e parece que jamais uma pessoa pobre habitou a face da Terra. Isso tudo, claro, se você não ousar colocar os pés nas cidades satélites, onde esta fantasia acaba instantaneamente.

A cidade é muito elitista. Não dá nem para imaginar a vida de quem não tem carro em Brasília. Nada de calçadas em nenhum lugar, raríssimos pontos de ônibus, distâncias inimagináveis a pé até para comprar um sorvete. É evidente a força e o poder da grana que circula por lá. De vez em quando fico imaginando como seria se este dinheiro fácil e abundante que está por toda a cidade estivesse em lugares com mais beleza. Dá para imaginar o que seria, por exemplo, de Fortaleza com a grana de Brasília? Melhor ainda: dá para pensar o que seria a grana de Brasília utilizada não só para construir uma fachada de plástico, uma cidade cenográfica com atores muitas vezes ridículos, mas para melhorar a vida de quem mora por lá e não tem condições de acompanhar na sua casa, na educação dos seus filhos, a riqueza e o desenvolvimento da cidade?

Se tudo isso é muito ruim, é bem verdade também que a capital tem algo que faz dela um lugar adorável: como a grande maioria das pessoas não é de lá, mas está lá por negócios, política ou porque passou em um super bem remunerado concurso, é um lugar sem raízes, objetivo e funcional. E a proximidade do poder, faz com que os negócios fiquem mais rápidos, bem mais duros e bem mais concisos. A cidade não tem a poesia do Rio, o charme cosmopolita de São Paulo e muito menos a beleza cool do Recife. Mas você quer trabalhar com jornalismo político de verdade? É lá, honey. Bastidores do poder? Lá. Relações internacionais, embaixadores, diplomatas? Brasília. Trabalha na área jurídica? E o Supremo, fica onde? Business, fornece ou quer fornecer para o Governo? É impossível negar que se não dá para construir uma vida lá, para mim, por um período, seria um lugar extremamente instigante intelectual e profissionalmente falando.

Brasília, com todos os seus homens no poder, para mim, é uma mulher. Não uma mulher descontraída, dessas que te acompanha num sorvete dando risada, toda lambuzada num sábado à tarde. Mas uma mulher alta e magra, muito forte e decidida. Muito sóbria e muito rápida. Não é a melhor. Mas é preciso saber reconhecer seu valor.

Listinha feita no avião**

 

 

Coisas que tornam o dia pior:

 

* Comida de avião

 

* Gente tacanha, que faz a maior confusão quando você não age dentro dos padrões que ela criou na cabeça (limitada).

 

* Ouvir pela milésima vez: “Já terminou o relatório?”.

 

* Gente que só fica feliz com as suas alegrias quando ela própria está feliz. Que só fica contente com a sua promoção quando já tem um emprego melhor, e por aí vai. Deve ser muito triste viver assim.

 

* A perspectiva de participar de um jantar após dois vôos em um mesmo dia e descobrir que o menu tem coisas como brócolis, cenoura e beterraba. Alguém tem um Doritos aí?

 

 

Coisas que tornam o dia melhor:

 

* Apesar de todos os problemas do mundo, saber que se pode anunciar em uma terça feira de manhã, que pelo menos por hoje, está feliz. Simples assim. Feliz.

 

* Mensagens de texto na hora certa. De vez em quando elas vêm até em Latim.

 

* Abraço apertado, bem apertado. De amigo, de namorado, de ficante, enfim, de qualquer um que te queira bem de verdade.

 

* Demonstrações de amizade. Sem muitas perguntas, só porque você está precisando.

 

* Bolachas Traquinas de morango. Às vezes elas vêm acompanhadas do item acima.

 

* Gente que se surpreende com o que você faz, sim. Mas de forma bem humorada, elegante, cool.

 

* Encontrar gente que você não vê toda hora, mas que você ama, para um programa depois de um jantar uó.

 

* Chocolate e sexo. Não necessariamente nesta ordem. Nem juntos.

 

* Ligações intercontinentais que provam que mesmo com tanta sacanagem, o mundo ainda é um lugar ótimo pra se viver.

 

** Brasília me aguarda. Se as condições permitirem, posto de lá.




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