Tão simples e tão complicado
Das decepções que a gente tem nessa vida, talvez as mais chatas de aceitar são aquelas com as coisas mais simples, mais óbvias e mais certas.
Se de repente surge uma oportunidade de fazer alguma coisa bem exótica, como por exemplo, uma viagem de vinte dias pela Ásia, você fica feliz, claro, mas se por algum motivo não dá certo, não é lá muito complicado de aceitar. A possibilidade de isso acontecer era grande.
Difícil mesmo é aceitar que coisas simples, e que na sua cabeça iam muito bem, falhem. Complicado aceitar que tomar sorvete e passear de mão dadas, beijar e conversar com alguém que poderia vir a se tornar especial, tornem-se atividades tão complexas e tão difíceis.
De repente você percebe que em alguns momentos a vida não é simplesmente vivida. É teorizada, projetada, profetizada até, com base em coisas que ninguém pode controlar.
O que fazer quanto tudo que se quer é viver, é tentar ser feliz (por uma semana, um mês ou um ano) e o mundo quer teorizar, esquematizar – e por tabela, te decepcionar?
Não sei. Talvez o melhor seja lamentar o que poderia ter sido e não foi, torcer para que a pessoa entenda um dia e seguir em frente.
Quem vê alguém que já viveu muita coisa boa e ruim nesta vida, às vezes pensa que estar com alguém assim é muito complicado, muito cheio de novidades diárias. Talvez seja em alguns dias, mas não o tempo todo. É preciso entender que quem faz o que quer, viaja bastante e é bem independente, também gosta de às vezes sentar no Ibirapuera e conversar sobre a vida, sobre o outro. Que quem vai onde bem entende adora isso, mas gosta também de ir ao cinema, de beijo na boca, de abraço apertado e de olhar nos olhos. E que viajar a Europa toda é sim, uma delícia, que saltar de asa delta é o máximo, mas que tem dias nos quais tudo o que se quer é sentar no chão de calcinha e camiseta, tomar uma coca cola, dar um abraço e contar como foi seu dia. Sim, há muita beleza no champagne e no refrigerente, no jantar francês e no fast food, na graça dos garotos e na segurança dos homens mais velhos.
A vida às vezes é muito simples, muito óbvia e te convida para ser feliz, ou ao menos para tentar. É muito chato quando você descobre que tem que recusar o convite.
Estranho isso. Talvez viver uma vida descomplicada, com essas atividades cotidianas que tem uma graça toda própria, seja a coisa mais difícil de experimentar do mundo. Deve ser por isso que é tão bom.
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