Por 10 segundos ou por um pouco mais...
Uma vida em 10 segundos. É impressionante como uma vida nova absorve com facilidade. Hoje se eu for pensar em grande parte dos meus afazeres, preocupações e alegrias diárias, vou perceber que eles envolvem atividades/pessoas/instituições que nem existiam na minha vida há dois anos atrás.E eu estou muitíssimo feliz assim. Mas mais impressionante ainda é a rapidez como tudo que já foi parte da sua vida passa a fazer sentido – e a ser lembrado – novamente.
Saí da aula terça feira. Monet, Issler, provas, resenhas. Era isso. Desci as escadas com isso na cabeça e uma ruga de preocupação na testa. Você já estava lá. E me viu primeiro, séria. Como pressentindo seu olhar, me virei. 10 segundos. E lá estava de novo a menina que saía do apartamento e ia descalça sentar na praia no Jardim de Alah pra pensar na vida. Que apostavas corridas – eu sempre perdia! – com você em Amaralina. De repente nada me pareceu mais importante do que andar de moto na Linha Verde com o vento no rosto. Ou de sentar no Porto da Barra nos fins de tarde de quarta pra falar de cinema e namorar. Entre a gente, o ar tinha gosto de sábado, lembra do livro da Clarice? Deu vontade de novamente ir ao ensaio da Timbalada com você, ou sair em todos os blocos e inventar todas as modas de verão. De repente me deu a impressão de que de novo eu ia entrar pelo apartamento da Barra cheia de compras na mão e reclamando que na sua geladeira só tinha coisas saudáveis. Nestes segundos, o mundo parou. Nesse espaço de tempo eu vi suas chaves em cima da geladeira, e lembrei da sua mania esquisita de passar a mão no meu rosto sempre que eu ficava triste. Mas lembrei, principalmente, do dia em que você me disse a frase que faz a gente ter certeza que dali para diante as coisas iam mudar para sempre, para bem ou para o mal. E aí eu não pensei em mais nada. Te abracei e constatei que a vida muda a todo instante. Você não é São Paulo. Eu não sou Fortaleza. Nós não somos mais Salvador. Trilhamos outros caminhos, bem diferentes. Vamos amar outras pessoas, beijar outras bocas, olharemos outros olhares. Vamos sofrer, chorar, nos decepcionarmos, estudar e trabalhar sem que o outro fique sabendo. Ficaremos felizes, surpresos, desolados, entusiasmados. Construiremos vidas repletas de outras pessoas, casas, empregos, cachorros, tapetes. Mas uma coisa nunca vai mudar. Toda vez que nossos olhares se cruzarem, vamos nos lembrar que ali existiu um grande amor e há agora uma enorme amizade, ainda que a distância e a vida façam com que nos vejamos raríssimamente. O abraço terminou. Você queria saber se eu estava feliz em te ver. Eu? Calei-me, simplesmente.