Como parecer o que você não é em poucas lições

 

 

É como a mulher de César: nem tem que ser honesta, mas parecer. O assunto não é novo, e assola todas as áreas da vida de quem vive em grandes cidades, especialmente em ambientes grandes e metidos a besta. Seja uma grande empresa, uma universidade ou onde for, não é preciso ser eficiente, inteligente ou fino. Basta parecer.

Para tanto, deveriam elaborar um guia prático (que de prático, no final, não teria nada, já que dá para pensar em umas 250 páginas sobre cada um dos assuntos).

Mesmo assim, aí vão algumas dicas.

 

Na empresa:

 

* Faça várias pilhas baixas de papel sobre a mesa, para demonstrar que você tem muito trabalho, mas é organizado.

* Assuma sempre uma expressão séria e compenetrada ao computador, mesmo que esteja jogando paciência. Use óculos, ainda que na testa e ainda que sua visão seja perfeita.

* Utilize vários jargões corporativos, dizendo coisas como “na verdade, a inserção no escopo do projeto do sistema VPP pelo nosso CEO permitiu um gerenciamento de tempo mais eficaz, e com o know-how dos novos consultores, isso se traduziu em maior rentabilidade e evitou uma subutilização dos colaboradores”.

* Se você for chefe, convoque reuniões periódicas (ou brainstormings, se você enlouquecer na dica acima), apareça sempre com uma pasta recheada de relatórios bem coloridos e, como em toda reunião, não resolva nada, mas diga que o assunto precisa ser repensado individualmente e será rediscutido na próxima reunião.

* Nunca saia da sua sala, mesa ou cadeira sem várias pastas, papéis e relatórios na mão, nem que seja para dar um pulinho na sala da Valdete do Financeiro, que está com um catálogo novo da Avon.

 

Na faculdade:

 

* Seja contra. Não importa o que for: a esquerda, a direita, os direitos das belugas irlandesas (copyright by Orsolini), mas, por favor, seja contra. Você precisa demonstrar consciência. O esquema é meio “se você não é contra, é porque não entendeu a questão em profundidade”.

 

* Assuma uma expressão entediada diante de qualquer comentário de um colega de classe.

 

* Assim que qualquer professor expor uma idéia, levante a mão e diga as mesmas coisas, com outras palavras (de preferências mais rebuscadas) e acrescente, com ar blasé, que há um livro muito interessante de Rajhfdfjfldjflfal  (o nome não importa, desde que seja bem obscuro) que trata do assunto de maneira muito original.

 

* Atenção às perguntas: elas devem ser feitas no fim da aula, e jamais, em hipótese alguma, deverão ser diretas. Devem conter uma introdução de no mínimo 5 minutos onde você demonstra tudo o que (não) sabe sobre o assunto e de forma que o interlocutor não saiba afinal o que é mesmo que você quer saber. Você não quer, afinal.

 

Onde é que a gente vai parar com isso, ninguém sabe, mas que o mundo é povoado de gente assim, não há dúvidas.




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