Só pra não esquecer...

 

 

O jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter. [Cláudio Abramo, 1923-1987]

 

Ou ainda, como diz um amigo meu, jornalismo é uma forma de ganhar a vida e interferir nela.

Era uma vez (uma só, ainda bem)

 

 

Era uma vez uma moça vinda de um reino distante. Por razões que não caberiam aqui, ela era diferente das outras meninas do reino. E passou grande parte da vida para lá e para cá, viajando, fazendo amizades, amando, sofrendo e chorando – bastante. Um dia, por razões que também não cabem aqui, voltou para o seu reino, e parecia estava em um país estrangeiro: os amigos não eram mais os mesmos, o barulho incomodava, o frio deprimia, a dureza dos dias machucava. Ela, que sempre foi forte e agüentou os mais variados trancos, ficou fragilizada. E quis o destino que fosse buscar apoio em um moço que não era exatamente o moço certo desta história (se é que existe um moço certo). Foi uma confusão danada: ela demonstrou o que não sentia, ele entendeu o que não era verdade e brigas aqui, brigas acolá, o tempo da delicadeza foi embora, e mais do que não apoiar a moça, ele espatifou o cristal da afeição verdadeira.

Ela fez como já tinha feito antes: enxugou as lágrimas com as costas das mãos e seguiu em frente. Achou um outro moço: não para apoiá-la, mas para seguirem juntos, se apoiando. Não sabe se é o moço certo: nunca tem como saber, mas está feliz por hora e é isso que importa.

De vez em quando, ouve uma frase, olha por uma janela e sente uma ponta de tristeza por ter escrito na sua história uma página tão mal explicada, cheia de mal-entendidos, carências, incompreensões, falta de delicadeza, de todas as partes envolvidas.

Não vai tentar reescrevê-la, isso tem certeza. Qualquer movimento seu ainda é e por muito tempo, anos até, vai ser visto com desconforto e uma certa ponta de arrogância, a mesma que ela tinha quando era mais jovem e se achava insuperável.

Só que agora, passada a raiva e o orgulho ferido, sente um certo incômodo por não dizer milhões de coisas que nunca pôde explicar e que o moço não tem tempo nem interesse em entender.

Talvez um dia ela possa dizer isso a ele. Talvez não, e ela vai ter que aprender a conviver com mais isso. Talvez seja melhor assim. No fundo, só tem uma certeza: toda vez que vir o nome dele fazendo sucesso no reino (é um moço talentoso, apesar de ferino com as palavras) vai abrir um sorriso. Nisso, ela não difere em nada de todas as outras mocinhas bobas de todos os reinos do mundo: mesmo com tudo de ruim que se passou entre eles, e que talvez ela nunca supere, guarda uma afeição distante, e quer mesmo é que, como ela, ele sofra, chore, experimente, viaje, sorria, beba, amadureça, trabalhe e seja, apesar disso e justamente por isso,  muito feliz.

 




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